quarta-feira, 3 de março de 2010

O DIA EM QUE A MORTE FEZ GREVE...

Era uma vez em uma terra distante um povo que vivia num país pequeno e isolado, sem fronteiras com o mar e cercado por outros paises vizinhos, onde seus habitantes eram prósperos e felizes. Apesar disso, nos momentos mais difíceis, quando a Morte batia em suas portas, estes se rebelavam e toda sorte de impropérios eram ditos àquela senhora, que tinha por obrigação informar e cobrar a sua vida em terra, com a sua partida em outro mundo espiritual.

Esta senhora, cansada de ser tripudiada, xingada e escarnecida por todos os impropérios existentes no mundo, resolveu se vingar e dar um susto em todo o povo deste pequeno país insular de mares não existentes. E ela, a D. Malvada, a D. Morte, resolve fazer uma greve e suspender todas as mortes e todos viveriam eternamente. Não era assim que todos desejavam? A vida eterna?

Todos ficaram contentes, alegres e felizes. E o povo se vangloriava a plenos pulmões – nunca mais teremos a morte batendo em nossa porta.

No início tudo era uma felicidade só. Ninguém morria. Todos eternamente viviam. Um verdadeiro paraíso.

Entretanto... Os problemas começam a se apresentar. Ninguém morria, mas ninguém continuava jovem, as pessoas envelheciam, mas não morriam. Somente a raça humana. Os animais, e todos os demais seres viventes, nasciam, viviam, envelheciam e morriam.

Os idosos doentes, precisando de cuidados, lotavam os hospitais, eram tratados e não morriam. Os custos hospitalares começam a aumentar de modo insuportável. Nos abrigos de idosos, as necessidades e custos aumentavam a cada ano.

Os acidentados, os baleados, abatidos, mas não mortos, não morriam e viviam, como que mortos-vivos, semelhantes àqueles monstros dos filmes de ficção.

As famílias não estavam agüentando mais aquela situação. O governo preocupado, como o que fazer com seus doentes, que não morriam. Custos da aposentadoria chegando a níveis estratosféricos. Reclamações de todos os lados. As companhias seguradoras não tinham mais clientes, ninguém morria... As funerárias, do mesmo modo, também reclamavam. Todos os empresários diziam: - E agora, o que vamos fazer ?!!! Ninguém mais morre? Como vamos sobreviver?

E assim todos reclamavam, e viviam um vida surrealista. Uma coisa louca, uma coisa de outro mundo, um castigo dos deuses.

Novas idéias foram surgindo. As seguradoras inventam a Morte Virtual e continuaram a oferecer as suas apólices, que seriam pagas, e eram, quando as pessoas completassem uma idade limite, por exemplo, 80 anos. Teriam uma morte virtual, uma morte só no papel.

As empresas funerárias começam a oferecer serviços para os animais de estimação, que verdadeiramente morriam. Surgem caixões e urnas mortuárias para todo tipo de animal. Velórios para animais e cemitérios também. E assim, os contratos continuavam a serem vendidos, mas somente para animais. Homens e mulheres não morriam, mas também com o tempo, não viviam. As suas vidas, não eram vidas, eram vidas mortas, vidas sem sentido espiritual e todos com isto sofriam e sofrem. Começam a entender que a vida é um ciclo vital de chegada a este mundo, convivência mútua e partida, e de algum modo todos começam a pensar em modificar tal situação, ou então a lembrar-se de como eram felizes e não sabiam.

Como nos países vizinhos a morte ainda acontecia, todos queriam sair do seu país, atravessar a fronteira e morrer. E os governos destes países tinham que cercar e combater esta emigração indesejada. Não era uma emigração para uma vida melhor. Era uma emigração para a Morte. O objetivo era morrer, para quem já estava morto, mas vivia e por isto a morte desejava.

E assim todos começam a reclamar da situação e a dizer: “Oh quão bom era naqueles tempos, nascíamos, vivíamos e morríamos. E isto era bom.”

E a D. Morte com dó e pena daquele povo, resolve revogar a sua decisão e recomeça a entregar as suas cartas de aviso do fim da estrada para cada ser vivente.

E todos viveram felizes para sempre... E nunca mais reclamaram... Nem da morte...

José Carlos Ramires - Diretor

Funerária N. Sra. Aparecida de Santo Anastácio Ltda ME

http://funerariaramires.blogspot.com/ - funerária_ramires@hotmail.com

03/03/2010

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